Mulher idosa no Brasil: um desafio?

Mês da mulher é mês de celebração, mas também de reflexão e de conscientização sobre os desafios que ainda temos a enfrentar.

Equipe Gero360 em 10/03/2021

O Dia Internacional da Mulher, comemorado anualmente em 8 de março, é marcado por dar destaque à luta por direitos e pela igualdade de gêneros ao redor do mundo. Apesar de ser uma celebração antiga, os desafios das mulheres ainda são muitos. Em especial, quando os desafios de “ser mulher” se somam aos desafios do avanço da idade. Nestes casos, a urgência de conscientização e de ação parece ainda maior. As barreiras enfrentadas por estas mulheres encontram-se, por exemplo, no núcleo familiar; no ambiente de trabalho; nos padrões de beleza e na vida sexual.

Frequentemente, a mulher idosa chega à idade avançada carregando uma trajetória de vida pesada, que fragiliza sua saúde física e mental. Esta bagagem pode ser composta por diversos fatores, como: a desigualdade e a discriminação nos ambientes em que habita; a obrigação do cuidado familiar; a ausência de segurança financeira (por dificuldade de ingressar no mercado de trabalho; dependência do cônjuge e/ou ausência de poupança ou bens) e a pouca garantia de direitos.

A feminização da velhice

Enfrentar estes desafios em um país no qual a maior parte da população idosa é composta por mulheres, amplia a necessidade do debate. Primeiramente, vale mencionar o fenômeno de envelhecimento da população brasileira. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, até 2030 a população brasileira será comporta por cerca de 30% de pessoas com mais de 60 anos. Os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que cerca de 56% da população idosa é composta pelo gênero feminino.

Assim, o Brasil torna-se palco de um fenômeno chamado “feminização da velhice”, com o predomínio de mulheres na população idosa. Isso acontece por diferentes aspectos, entre eles:

  1. O primeiro fator para explicar a maior expectativa de vida das mulheres é a violência social e por acidentes – também chamadas de mortes não naturais; que atingem mais indivíduos do sexo masculino durante toda a vida, principalmente na faixa etária de jovens adultos.
  2. Além disso, homens, em sua maioria, são mais negligentes com a saúde. Enquanto as mulheres fazem visitas periódicas ao médico ao longo da vida, principalmente devido ao ciclo reprodutivo, o homem na maioria das vezes, procura cuidados médicos apenas quando apresenta sinais ou sintomas. Um dado da Pesquisa Nacional de Saúde realizada pelo IBGE mostra que 82% das mulheres consultaram um médico em 2019, contra 69% dos homens.
No entanto, viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. Na sociedade em que vivemos, a mulher é responsável por muitos papéis e, ao mesmo tempo, sofre com discriminação social, política e econômica.

A sobrecarga do cuidado para a mulher

Ao longo da vida, a responsabilidade pela casa e pelos familiares fez com que as mulheres dedicassem quase o dobro de tempo a atividades domésticas e ao cuidado de outras pessoas, resultando na jornada dupla de trabalho e no desgaste físico e emocional. Como agravante da situação, pouca evolução se vê na criação de instrumentos que apoiem ou substituam as responsabilidades designadas para as mulheres no âmbito familiar.

Em geral, a responsabilidade do cuidado acompanha a mulher durante todas as etapas da sua vida: no cuidado aos filhos, irmãos, pais, maridos e sogros. Ao envelhecerem, parte das mulheres passam a ocupar não só o papel de cuidadoras, mas também de provedoras por meio das aposentadorias ou pensões.

Desafios financeiros

Neste contexto, é importante ressaltar que a diferença salarial entre gêneros e a progressão da carreira ao longo da vida, fatores fundamentais para a construção de um patrimônio e aposentadoria melhores, afetam diretamente a qualidade de vida da mulher idosa.

Em “Os Novos Idosos Brasileiros: Muito Além dos 60?”, a pesquisadora Ana Amélia Camarano afirma que os rendimentos absolutos da população feminina são mais baixos do que a população masculina, e crescem com a idade. No entanto, a partir dos 60 anos, as mulheres idosas aparecem em posição melhor do que nas outras faixas etárias. Em muitos casos, isso acontece devido a pensões por viuvez que garantem a segurança financeira e não necessariamente pela construção de um patrimônio próprio.

Apesar disso, a ausência de segurança financeira na velhice é uma realidade para a mulher idosa que não tem uma perspectiva de renda por aposentadoria ou pensão. Ao viver mais, a idosa se depara com sua qualidade de vida comprometida e impossibilitada de assumir o padrão de gastos adequado para o bem-estar na velhice.

 

A mulher idosa é mais feliz?

No entanto, vale a observação: como mencionamos no texto sobre o Dia Internacional da Felicidade, no decorrer da vida, as mulheres com longa e intensa rotina profissional e de cuidados aos seus familiares, adquirem habilidades de enfrentamento e resiliência. Segundo a escritora Mary Pipher, “décadas de experiências levam mulheres a criarem expectativas palpáveis e se empenharem na felicidade como um objetivo”.

A baixa representatividade no feminismo

O feminismo é um dos mais importantes movimentos políticos da atualidade, marcado pela luta contra a discriminação e submissão das mulheres, que abriu espaço para muitas conquistas ao longo das últimas décadas. Entre elas, a maior participação no mercado de trabalho, na política, na cultura, e nas demais esferas sociais.

Ao longo das décadas, os movimentos feministas desenvolveram suas vertentes, como o feminismo negro, o feminismo radical e o feminismo interseccional. No entanto, a mulher idosa não é representada com frequência nas pautas do feminismo. Neste contexto, mulheres idosas sofrem com a discriminação relacionada ao gênero, mas também com o preconceito em relação aos idosos – também conhecido como ageísmo.

 

De acordo com a socióloga Maria do Carmo Guido de Lascio “se assumir velha ou velho é socialmente inaceitável para a maioria das mulheres. Assumir a velhice significa aceitar as fragilidades comumente atribuídas ao avanço da idade, como: a perda da capacidade de sedução e reprodução e a perda de pertencimento ao mundo da competição em todos os níveis.” Dessa forma, a discriminação está presente dentro do próprio grupo de mulheres. Neste sentido, os direitos da mulher nessa faixa etária são pouco contemplados no movimento feminista, que é fundamental para transformações sociais.

Como conseguiremos melhorar enquanto sociedade?

O caminho para uma sociedade mais inclusiva passa, entre muitos fatores, pelo respeito, pela conscientização e pela criação de medidas que amparem as mulheres desde a infância até o fim da vida, nos diferentes papéis: na família, na educação, no trabalho, na saúde etc. Neste contexto, é preciso também estimular a capacitação de profissionais voltados para as demandas dessa parcela da população, a inserção da mulher idosa nas diferentes esferas da sociedade e o fortalecimento do seu ciclo social.

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